Uma reconstrução lógica da segunda antinomia da razão pura
Pesquisador: Sílvio Pinto
Orientador(a): Prof. Dr. Zeljko Loparic
Instituição: Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP
Departamento/Programa: Filosofia / Programa de Pós-Graduação
Resumo: A reconstrução lógica da segunda antinomia procura apresentá-la como un paradoxo que resulta do conflito entre duas soluções realistas transcendentais para o segundo problema cosmológico. Estas duas soluções são, respectivamente, a tese e a antítese da segunda antinomia. A fim de tornar evidente o paradoxo, é necessário, de início, elaborar uma reconstrução da tese e da antítese que seja capaz de mostrar como as duas são geradas a partir da estratégia realista transcendental de solução para o segundo problema cosmológico. Esta estratégia realista foi caracterizada por Zeljko Loparic, na sua análise da primeira antinomia, como consistindo de um conjunto de três princípios transcendentais, também chamados princípios semânticos, e seis princípios lógicos, além do método indireto de prova. Dentre os seis princípios lógicos mencionados, estão o princípio de terceiro excluído com negação predicativa e o princípio de terceiro excluído com negação proposicional. Estes princípios poderiam ser expressos na Lógica da época de Kant da seguinte maneira: "S é P ou S é não-P" (este é o terceiro excluído com negação predicativa) e "S é P ou S não é P" (este é o terceiro excluído com negação proposicional). A caracterização que Loparic propõe para a estratégia realista de solução dos problemas cosmológicos é aquela que adotamos neste trabalho. No primeiro capítulo, procuramos inicialmente explicitar em que consiste o segundo problema cosmológico e qual o dado deste problema. A seguir, pretendemos mostrar de que maneira a tese e a antítese podem ser construídas como soluções para o segundo problema cosmológico. Os ingredientes para se chegar a estas soluções são os três princípios transcendentais realistas, os princípios de terceiro excluído e o modus ponens (que é, este último, um dos seis princípios lógicos mencionados acima), além do dado do problema. Mostra-se, em seguida, que a tese e antítese são as duas únicas soluções possíveis dentro do quadro do realismo transcendental para o segundo problema cosmológico. De fato, ambas são reconstruídas como classes de juízos categóricos singulares, tais que a cada juízo pertencente à classe da tese corresponde um juízo na classe da antítese e vice-versa. Cada juízo representante da classe da tese é um juízo afirmativo e seu correspondente na classe da antítese é um juízo negativo, tal que ambos têm o mesmo sujeito e o predicado do representante da antítese é o resultado da negação aplicada ao predicado de seu correspondente representante da tese. Assim, a disjunção entre o juízo representante da tese e o seu correspondente representante da antítese exemplifica o princípio de terceiro excluído com negação predicativa e é, por isso, um juízo analítico. A seguir, apresentamos as provas da tese e da antítese a fim de mostrar que elas são provas por método indireto. Para isso, é proposta uma caracterização provisória daquilo que Kant entendia por método indireto. Pretende-se também mostrar que as provas da tese e da antítese utilizam os seis princípios lógicos mencionados acima nas suas inferências. Além dos princípios lógicos que justificam as inferências, são usadas nas provas da tese e da antítese definições e princípios que são específicos do contexto de cada prova. Assim, por exemplo, na prova da tese são usadas as definições de substância e de composição aplicada à substância. As provas da tese e da antítese são independentes entre si e, em cada uma delas a oposta contraditória da proposição a ser provada é tomada como hipótese e falsificada por método indireto (método de redução ao absurdo). A tese é provada por redução ao absurdo da antítese e vice-versa. Convém ressaltar que a prova da segunda parte da antítese tal como é apresentada neste trabalho não se enquadra na mencionada caracterização provisória do método indireto. A sua adequação ao procedimento aceito para este método é discutida mais adiante no decorrer do capítulo dedicado ao método indireto. O resultado importante alcançado pela reconstrução lógica das provas da tese e da antítese da segunda antinomia é que através dela fica claro que tanto a tese quanto a antítese são falsificadas a priori através de provas independentes entre si. Ora, a falsidade da tese e da antítese viola o princípio de terceiro excluído com negação predicativa, já que a disjunção entre a tese e a antítese exemplifica este princípio. Portanto, a reconstrução lógica da segunda antinomia caracteriza esta última como um paradoxo resultante da violação de um princípio lógico, a saber: o terceiro excluído com negação predicativa. Propomos, então, no capítulo seguinte, um exame mais detalhado do princípio de terceiro excluído. Primeiro, julgamos necessário considerar as negações que aparecem respectivamente no terceiro excluído com negação predicativa e no terceiro excluído com negação proposicional, inserindo-as no contexto da Lógica formal, tal como esta última era concebida por Meier e por Kant. Procura-se, em seguida, relacionar estas negações da Lógica formal com as negações que aparecem na Lógica transcendental, com o objetivo de esclarecer a impossibilidade de a Lógica formal distinguir entre a negação predicativa e a negação proposicional. Ao mesmo tempo, mostra-se que a Lógica transcendental dispõe de critérios para distinguir entre dois tipos de negação, a saber: a limitação transcendental e a negação transcendental. A seguir, procura-se conectar o princípio de terceiro excluído com negação predicativa com o princípio de determinação completa, com a finalidade de mostrar que ambos não são considerados princípios lógicos pela Lógica transcendental, embora o terceiro excluído com negação predicativa seja um princípio de Lógica formal. Pode-se, assim, concluir da análise do princípio de terceiro excluído com negação predicativa que o paradoxo que caracteriza a segunda antinomia desaparece do ponto de vista da Lógica transcendental. Com efeito, deste ponto de vista, a tese e a antítese não são proposições opostas contraditórias, mas apenas opostas contrárias. A falha do terceiro excluído com negação predicativa na segunda antinomia é explicada pelo fato de que os objetos aos quais se referem os sujeitos da tese e da antítese constituem um domínio, dentro do qual não vale o terceiro excluído com negação predicativa. No capítulo seguinte, que é dedicado aos três princípios transcendentais realistas, são examinadas as objeções que poderiam ser lançadas pela Lógica transcendental contra estes três princípios, a partir dos quais são construídas a tese e a antítese da segunda antinomia. Considera-se, em primeiro lugar, o chamado princípio da anfibologia transcendental. Por meio deste princípio são caracterizados os objetos que aparecem como referentes dos conceitos usados na tese e na antítese. Mostra-se que alguns destes objetos correspondem a conceitos auto-contraditórios. Um exemplo de um tal objeto é, segundo Kant, aquele que figura como referente do sujeito da tese e da antítese. Para Kant, é a presença de um mesmo conceito auto-contraditório como sujeito da tese e da antítese que explica a falsidade tanto da primeira quanto da segunda antinomia. A seguir, considera-se o princípio peculiar realista. A análise deste princípio mostra como surge o objeto representado pelo conceito que figura nos sujeitos da tese e da antítese a partir da tentativa de solução realista do segundo problema cosmológico. Com base na distinção entre princípios constitutivos e regulativos, é possível esclarecer a afirmação kantiana de que o princípio peculiar realista é um princípio constitutivo dos objetos das idéias. Entretanto, Kant considera que o uso de princípios da razão como constitutivos é inteiramente infundado. O único uso legítimo do princípio peculiar (como um princípio transcendental e não apenas como um princípio lógico) é o uso regulativo com relação à experiência. Neste uso, o princípio peculiar é denominado princípio regulativo da razão. Finalmente, considera-se o princípio realista de significado para as idéias e categorias. Através deste princípio, idéias e categorias não-esquematizadas podem ser usadas em juízos sintéticos, que possuem validade objetiva. Exemplos de tais juízos sintéticos são a tese e a antítese da segunda antinomia. No sujeito comum à tese e à antítese está presente uma idéia, isto e, um conceito da razão. Através do princípio da anfibologia transcendental, esta idéia torna-se um conceito auto-contraditório. Mostra-se, com o auxílio da Lógica transcendental, que a maneira pela qual o metafísico realista atribui realidade objetiva às categorias e ás idéias é completamente injustificada. De acordo com a Lógica transcendental, somente categorias acopladas a seus respectivos esquemas são objetivamente válidas. As idéias, por outro lado, somente quando acopladas a quase-esquemas, ou seja, esquemas de idéias, podem ser consideradas objetivamente válidas, embora esta validade objetiva, que é dita ser indeterminada, não caracterize um uso constitutivo das idéias com relação à experiência. Uma vez resolvido o problema da validade objetiva das idéias, fica imediatamente resolvido o problema da validade objetiva do princípio regulativo da razão. De fato, a relação existente entre o princípio regulativo e as idéias é análoga àquela existente entre os princípios do entendimento e suas respectivas categorias. A partir das objeções kantianas aos princípios transcendentais realistas, consideramos que se torna mais fácil a tarefa de entender os elementos que constituem a solução kantiana do segundo problema cosmológico. Com efeito, paralelamente ás objeções aos princípios realistas, são apresentadas as versões destes princípios válidas na Lógica transcendental que, segundo a presente abordagem, são usadas na solução kantiana do problema. No capítulo seguinte cujo tema é o método indireto, procura-se examiná-lo mais detalhadamente, por meio de uma caracterização mais precisa daquilo que Meir e Kant entendiam por um tal método. Com isso, visamos mostrar que as provas da tese e da antítese da segunda antinomia estão de acordo com a cânone de Meier e Kant acerca do método indireto. A investigação mais detalhada sobre as concepções de Kant e Meier a respeito deste método adquire especial importância no contexto do presente trabalho, na medida em que ela permite identificar o emprego do método em questão na prova da segunda parte da antítese. São examinadas também as razões apontadas na Crítica em favor de rejeição do método indireto na prova das proposições filosóficas. Consideramos que a segunda antinomia representa um contexto apropriado, dentro do qual estas razões poderiam ser discutidas. O próximo capítulo tem como tema a solução dada pela Lógica transcendental para o segundo problema cosmológico. Em primeiro lugar, discute-se o significado atribuído pelo idealismo transcendental ao segundo problema cosmológico, que se distingue do significado do mesmo problema no realismo transcendental. A solução kantiana do segundo problema é alcançada, de acordo com a reconstrução lógica, a partir do dado problema, do princípio regulativo da razão e do princípio idealista sobre o significado das idéias e das categorias. Procura-se, a seguir, apresentar uma prova para a mencionada solução idealista do segundo problema. O contexto em que esta prova se realiza é, no entanto, mais restrito do que aquele em que a solução kantiana foi originalmente enunciada na Crítica. Apesar disso, o exame desta prova permite detectar importantes diferenças entre as estratégias realista e kantiana para provar uma proposição filosófica, como, por exemplo, a aceitação e a rejeição do método indireto, respectivamente, quando se trata de fornecer uma prova para uma proposição filosófica não-negativa. No último capítulo, são consideradas algumas objeções presentes na literatura secundária ao texto da segunda antinomia. Escolhemos cinco dentre os mais importantes comentadores de Kant, a fim de mostrar que as suas abordagens são insatisfatórias quando se trata de dar uma explicação da segunda antinomia consistente com o texto kantiano. O primeiro comentador considerado foi Kemp Smith. Procuramos deixar claro que este autor se prende a uma interpretação do conflito dialético-do qual a antinomia é um exemplo-que Kant já tinha abandonado desde a publicação da Crítica e que é por esta mesma razão insuficiente para uma explicação razoável das antinomias da razão pura. A seguir, é examinado o comentário de Al-Azm, cuja abordagem histórica é, a nosso ver, incapaz de dar conta do caráter necessário dos problemas cosmológicos. O próximo comentário considerado é o de Jonathan Bennett. Procura-se mostrar que a falta de uma análise mais cuidadosa do texto kantiano faz com que este autor, e a sua pretensa abordagem analítica, incorra em graves erros de interpretação na sua crítica às antinomias, e, em particular, à segunda. Apresentamos, em seguida, o comentário de Bertrand Russell, cuja abordagem consiste em considerar a Lógica matemática desenvolvida por Frege e por ele próprio e a Matemática a partir de Cantor como paradigmas superiores a partir dos quais as duas primeiras antinomias devem ser criticadas. A perspectiva de Russell se mostrou, entretanto, igualmente insuficiente, conforme mostramos, para dar conta dos problemas colocados pela formulação kantiana da segunda antinomia. Examinamos, por último, o comentário de Strawson. A sua idéia de que as modernas teorias científicas que tratam da constituição da matéria podem servir para refutar os problemas internos da razão também não se mostra adequada para explicar o caráter a priori do segundo problema cosmológico e, conseqüentemente, da segunda antinomia. Concluímos assim, que é somente através de uma abordagem lógica nos moldes da Lógica transcendental (isto é, de uma Lógica que considera não apenas a forma dos juízos, mas também o seu conteúdo a priori) que se torna possível uma explicação satisfatória da segunda antinomia e do segundo problema cosmológico. Este trabalho se propõe justamente a detalhar esta abordagem, de modo a apresentar a Lógica transcendental como uma crítica de princípios lógico-semânticos e métodos de prova a priori como, por exemplo, o princípio de terceiro excluído e o método indireto, que são empregados dogmaticamente em Filosofia.
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